Postado em 27 de Novembro de 2017 às 11h42

ENVELHECER E NADA MAIS

Bem-estar (44)

Por Roberta Zampetti - www.sou60.com.br

Natália, 84 anos, não percebe os anos passando. “É devagar, as mudanças são lentas”. E como não tem nenhuma doença crônica e não toma nenhum remédio, não sente os efeitos do envelhecimento. Aliás, a terceira ou quarta idade trazem consigo tudo o que fomos e somos na vida. Envelhecemos como vivemos.

Quem já ouviu afirmações do tipo: “fulano envelheceu e está ranzinza”. Será que não foi ranzinza a vida toda? “Quando envelhecemos temos todas as idades em nós, somos a criança que fomos, o jovem, o adulto, a pessoa madura que fomos e hoje estamos envelhecidos. Tem dia que você acorda com a criança falando mais forte, tem dia que a gente acorda com a idade que tem”, me disse a geriatra mineira Karla Giacomin.

Mas quando é que se fica velho? O espelho denuncia? Nem sempre. Uma amiga me contou de uma amiga da mãe dela que tinha mais de 80 anos e que trocou todas as lâmpadas de casa. A iluminação fraca era para não enxergar o rosto envelhecido. A história é verdadeira e a partir daí a mulher se tornou alvo de chacotas porque não conseguia acertar o batom nos lábios. O que era para enfeitar se tornou piada.

Por que temos medo de envelhecer e tentamos, com as nossas atitudes, negar a velhice? O velho passa a ser o outro e não me reconheço nele. Por que não posso me olhar no espelho –com luz boa, evidente – e gostar do que vejo?

Precisamos parar de cultuar a juventude. Trata-se de uma etapa da vida. E não a única! A beleza está em todas as idades. Não preciso escutar frases do tipo: “como você deve ter sido bonita quando era jovem” que só servem para fortalecer uma imagem alienada, cristalizada de que bacana é ser jovem. Como isso não é possível, a busca pela juventude eterna torna-se fonte de sofrimento. Pode ser diferente? Precisa ser diferente!

Tem uma frase de uma música do compositor brasileiro Arnaldo Antunes que diz: “a coisa mais moderna é envelhecer”. Verdade. Na década de 1940, a expectativa de vida no Brasil era de pouco mais de quarenta anos. Meu avô materno morreu aos 36 anos, já o meu avô paterno viveu mais de 90 anos, incomum para a época, mas perdeu filhos. A mortalidade infantil era enorme e hoje diminuiu muito. A geração pós-segunda guerra é a primeira que experimenta a longevidade por causa dos avanços da medicina, com a descoberta do antibiótico, por exemplo.

Mas, infelizmente, a longevidade é barrada pela morte de adolescentes vítimas de homicídios. A média é de 10,3 adolescentes assassinados por dia no Brasil, segundo o Mapa da Violência de 2013, estudo coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz. As outras causas foram acidentes de trânsito (13,9%) e suicídios (3,5%). Mortes evitáveis.

Tenho me olhado frequentemente no espelho. Enxergo-me como criança, adolescente, adulta e uma mulher de 62 anos. Enxergo minha mãe, minhas irmãs e primas. Sou tudo isso. Antes insistia em espichar o rosto com as mãos. Agora não mais. Estou em um trabalho árduo de aceitar-me.
Envelhecer é um processo irreversível. Se está vivendo, está envelhecendo o tempo todo, um minuto após o outro, um dia após o outro, embora nossa sociedade reserve à juventude o benefício e à velhice o déficit”, diz o psicanalista francês Jack Messy, no livro “A pessoa idosa não existe”. Com relação ao título do livro, “a expressão pessoa idosa, designa uma categoria social e faz desaparecer o sujeito com sua história pessoal, suas particularidades, seu caráter”, diz o autor.

Explica ainda tratar-se mais do que uma simples provocação, tendo em vista que a idade é irrelevante em si para uma abordagem psicanalítica, pois ela não interfere na psique. “Os processos do sistema inconsciente estão fora do tempo, a relação temporal é do âmbito do sistema consciente”, esclarece. No tratamento psicanalítico, estão em jogo os desejos e conclui: “Na circulação da libido não há jovem nem velho, o desejo não tem idade” (p. 10 e 24)

De qualquer forma, Jack Messy diz no livro que “o envelhecimento exprime ao mesmo tempo uma ideia de perda e outra de aquisição”. No livro “Perdas e ganhos”, que li há anos, a escritora gaúcha Lya Luft diz “Pois viver deveria ser – até o último pensamento e o derradeiro olhar – transformar-se.”

No entanto, envelhecer ainda é triste para muita gente. Uma amiga da rede social de 64 anos chegou a dizer que preferia se tornar “burra” que envelhecer. “Ai, meu Deus. depois de tanta luta ninguém merece… E morrer também deve ser uma dor filha da puta. Nunca vi um defunto sorrindo… Envelhecer é foda, essa é a minha verdade. Alguém me ajuda por favor?” . Fico penando que ela precisa fazer as pazes com o tempo. Afinal, envelhecer faz parte da vida, a outra alternativa – morrer cedo – imagino, não querer…

Resolvi fazer uma enquete no Facebook: a maioria das pessoas não se sente velha. E isso tem explicação para a geriatra Karla Giacomin. “A maioria se sente mais jovem e isso é uma tendência de sobrevivência já que na nossa sociedade ninguém quer ser, reconhecer e parecer que está velho”. Segundo ela, normalmente as pessoas se sentem, se mostram, se vestem, se apresentam com menos idade que têm. Trata-se de uma questão cultural que pode ser modificada, se a gente quiser e com muito trabalho. E essa percepção só vai mudar quando as pessoas envelhecerem em melhores condições, com mais capacidade de opinar, intervir, de fazer a diferença.

Enquanto isso não acontece, Tália faz sua parte. Ela tem 79 anos e opiniões próprias. Faz atividade física todos os dias, lê no mínimo dois jornais diariamente. “Gosto de ler opiniões diferentes”, comenta. Ela se atualiza e sabe de tudo que acontece no mundo. Estuda na Universidade Aberta para a turma da terceira idade. “Assim tenho oportunidade de descobrir novas dimensões da vida, adquiro novas habilidades, construo novas relações”. E defende que as pessoas devem ter a consciência da idade que têm e que isso não é impedimento para nada. Tália cita uma frase de Mario Quintana que a inspira no dia a dia: “nascer é uma possibilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio”. Me conta aí: como você está envelhecendo?

Essas e mais histórias em “Sou 60 - Diário de uma jornalista em busca de respostas sobre envelhecimento e a vida” (178 páginas, Editora Libretteria, R$ 30). 

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